O benefício criado para garantir a segurança alimentar dos trabalhadores tornou-se alvo de uma lucrativa rede de estelionato no estado de Goiás. Nas primeiras horas da manhã desta quarta-feira (23 de setembro), a Polícia Civil deflagrou uma operação de grande escala para desarticular uma associação criminosa especializada em fraudar o sistema de cartões de alimentação e refeição. Com o cumprimento de dezenas de mandados de prisão preventiva e de busca e apreensão, as autoridades fecharam o cerco contra um esquema que operava às claras no comércio local.
O esquema do “dinheiro na mão”
A mecânica da fraude desvendada pelas investigações baseava-se na simulação de vendas. O grupo criminoso aliciava trabalhadores dispostos a trocar o saldo de seus cartões de alimentação por dinheiro em espécie — uma prática estritamente proibida pelas operadoras dos benefícios e pela legislação trabalhista, que isenta esses valores de impostos justamente por sua finalidade alimentar.
Para viabilizar o golpe, a quadrilha utilizava o Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica (CNPJ) de empresas de fachada ou de comércios cúmplices (como pequenos mercados, açougues e distribuidoras de bebidas). Os suspeitos passavam os cartões nas maquininhas simulando compras vultosas de mantimentos. Em seguida, repassavam o valor em dinheiro vivo ou via Pix para o titular do cartão, retendo para a quadrilha uma taxa de ágio que variava entre 15% e 25% do montante transacionado.
A ofensiva policial e o bloqueio de bens
Durante o cumprimento dos mandados, que se concentraram na Região Metropolitana de Goiânia, os agentes apreenderam um vasto material probatório. Dezenas de máquinas de cartão de crédito, planilhas de contabilidade do esquema, dinheiro em espécie, celulares e veículos de luxo adquiridos com os lucros da fraude foram confiscados.
Além das prisões dos operadores diretos e dos donos dos comércios envolvidos, a Justiça goiana autorizou o bloqueio de contas bancárias e o sequestro de bens dos investigados. A medida visa garantir o ressarcimento das empresas operadoras de crédito e do Estado, que sofreu evasão fiscal severa durante a lavagem desse dinheiro.
Consequências penais e o futuro da investigação
Os suspeitos detidos na operação foram encaminhados à delegacia para prestar depoimento e responderão, inicialmente, pelos crimes de estelionato, lavagem de capitais, associação criminosa e crime contra a ordem tributária.
A Polícia Civil destacou que as investigações não se encerram com as prisões desta quarta-feira. O inquérito agora entra em uma nova fase, que consistirá no cruzamento dos dados telemáticos e bancários apreendidos para identificar se há ramificações do grupo no interior do estado. As autoridades também alertam que os trabalhadores que cederam seus cartões voluntariamente para a troca ilegal poderão ser indiciados por participação na fraude e correm o risco de demissão por justa causa por parte de seus empregadores.

