A quarta-feira, 29 de abril de 2026, entrou para a história republicana brasileira não apenas pela rejeição inédita de um indicado ao Supremo Tribunal Federal (STF), mas também pelos intensos embates de bastidor que dominaram a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ). Durante a sabatina do então advogado-geral da União, Jorge Messias, a senadora Soraya Thronicke (PSB-MS) assumiu o protagonismo das discussões ao utilizar uma estratégia retórica inusitada: evocar declarações do ex-presidente Jair Bolsonaro para defender a autonomia do Judiciário e minimizar os temores de aparelhamento político na Corte.
O episódio ocorreu poucas horas antes de o plenário do Senado Federal barrar, por 42 votos a 34, a ida de Messias para a mais alta instância do Judiciário nacional, impondo um duro golpe de governabilidade ao Palácio do Planalto.
O fantasma de Bolsonaro e a tese da independência
Para rebater as duras críticas da oposição, que acusava Jorge Messias de ser um nome excessivamente alinhado aos interesses ideológicos do Poder Executivo, Soraya Thronicke trouxe para a sabatina o retrospecto do governo anterior. A parlamentar sul-mato-grossense resgatou falas públicas nas quais Jair Bolsonaro sinalizava a intenção de interferir em órgãos de controle e até mesmo sugeria ampliar o número de ministros no STF, em uma tentativa de alterar o balanço de forças do tribunal.
O argumento central da senadora visava demonstrar que o desejo de controle presidencial sobre o Judiciário é uma preocupação institucional histórica, mas que a prática revela uma dinâmica diferente. Soraya enfatizou que, historicamente — inclusive durante as gestões anteriores do Partido dos Trabalhadores —, ministros indicados pelo presidente em exercício acabaram proferindo votos contrários aos interesses do próprio governo que os nomeou. Para a parlamentar, a vitaliciedade do cargo de ministro atua como um escudo, garantindo que a indicação de Messias não se traduziria, obrigatoriamente, em submissão às pautas do Planalto.
“Não se esqueça dos amigos”: A frase que roubou a cena
Apesar do tom institucional na defesa da separação dos Poderes, o momento de maior repercussão na CCJ ocorreu no encerramento da fala da senadora. Em uma quebra de protocolo que chamou a atenção de analistas políticos e gerou imediato burburinho nos corredores de Brasília, Soraya Thronicke dirigiu-se diretamente a Jorge Messias e disparou: “E, no dia em que vestir a toga, não se esqueça dos amigos”.
A declaração curiosa gerou múltiplas interpretações. Para alguns parlamentares, soou como uma demonstração explícita de proximidade política e uma tentativa de garantir pontes futuras no Judiciário. Para outros, evidenciou o nível de negociação de bastidor e o excesso de pragmatismo que cercam os processos de escolha para o STF.
A promessa de autocontenção e o choque das urnas
Ao longo de sua argumentação na CCJ, Jorge Messias adotou uma postura defensiva, prometendo aos senadores que, caso aprovado, teria um perfil pautado pela discrição e pela “autocontenção judicial”, evitando o ativismo que frequentemente coloca o STF em rota de colisão com o Congresso Nacional.
No entanto, as promessas de moderação jurídica e a defesa de aliados não foram suficientes para sustentar a candidatura no teste definitivo. Ao cair da noite, o plenário do Senado Federal rejeitou formalmente o nome de Messias. Fontes presentes no Congresso relataram que o atual chefe da AGU ficou visivelmente abalado com o placar de 42 votos contrários, que sepultou sua jornada rumo à toga e encerrou um capítulo de alta voltagem na política nacional.
Agora, o Governo Federal precisa recalcular sua base de apoio para não transformar a indicação substituta em um novo laboratório de crises.
