O desdobramento jurídico de um dos maiores escândalos de abuso sexual do Brasil atingiu um ponto crucial para a reparação das vítimas nesta quinta-feira (8 de outubro). A Justiça de Goiás determinou o bloqueio oficial de uma fazenda avaliada em aproximadamente R$ 41 milhões, pertencente a João Teixeira de Faria, o João de Deus. A decisão também atinge o patrimônio jurídico do centro espírita Casa Dom Inácio de Loyola, epicentro dos atendimentos realizados na cidade de Abadiânia, no interior do estado.
Prevenção contra a dilapidação de bens
A decisão de sequestro e bloqueio do imóvel rural foi tomada para resguardar o patrimônio diante das sentenças condenatórias já proferidas e dos processos cíveis em andamento. O Ministério Público do Estado de Goiás (MP-GO) e as representações legais das vítimas argumentaram que havia um risco latente de dilapidação, venda ou ocultação dos bens por parte da defesa e dos administradores do centro espírita.
Com a determinação judicial em vigor, a fazenda milionária fica indisponível. Isso significa que o ex-médium e a instituição não podem vender, transferir, desmembrar ou utilizar a área como garantia em operações financeiras. O valor do imóvel servirá como um fundo de garantia para arcar com as indenizações por danos morais e materiais estipuladas pelo Judiciário em favor das centenas de mulheres abusadas.
O braço financeiro e a responsabilidade institucional
A inclusão do centro espírita Casa Dom Inácio de Loyola no bloqueio reforça o entendimento da Justiça de que a instituição também possui responsabilidade civil objetiva sobre os crimes cometidos em suas dependências. Durante décadas, a Casa funcionou como a base estrutural, financeira e de captação de vulneráveis, fornecendo o ambiente e a autoridade que permitiram a João de Deus consumar as violações sob o pretexto de realizar cirurgias e tratamentos espirituais.
O bloqueio solidário evidencia que as cifras milionárias movimentadas pelo “turismo da fé” em Abadiânia agora deverão ser direcionadas à reparação dos danos irreparáveis causados às mulheres que buscavam cura e encontraram violência.
Séculos de condenação penal
O cerco ao patrimônio caminha em paralelo ao impressionante acúmulo de penas na esfera criminal. João de Deus, atualmente sob regime de prisão domiciliar em Anápolis devido à idade avançada e alegados problemas de saúde, já soma condenações que ultrapassam séculos de reclusão.
Ele foi considerado culpado em múltiplos processos por estupro de vulnerável, violação sexual mediante fraude e posse ilegal de armas de fogo. Para os grupos de apoio às vítimas e advogados assistentes de acusação, o bloqueio dos R$ 41 milhões representa uma das vitórias mais simbólicas do caso: a certeza de que a punição ao ex-médium também atingirá o poder econômico que por tantos anos garantiu sua impunidade.

