A trajetória de Romeu Zema, o outsider que surpreendeu o país em 2018 e garantiu uma reeleição tranquila em Minas Gerais em 2022, parece ter encontrado seu maior obstáculo na corrida presidencial de 2026. O que deveria ser o trampolim definitivo para o Partido Novo e para a direita liberal brasileira transformou-se em uma sucessão de erros táticos e isolamento estratégico. A campanha errática do ex-governador não apenas o mantém estagnado nas pesquisas, mas agora ameaça arrastar sua própria legenda para o abismo político da cláusula de barreira.
O preço do isolamento nas ruas e nos estúdios
A imagem de Zema caminhando quase sozinho por feiras populares em São Paulo e subindo as escadarias da Igreja da Penha, no Rio de Janeiro, seguido por repórteres, mas ignorado pelos eleitores, simboliza o atual estágio de sua candidatura. Sem palanques robustos ou aliados de peso ao seu lado, o ex-governador patina com irrisórios 3% das intenções de voto no último Datafolha, empatado tecnicamente na margem de erro com candidatos de legendas nanicas.
Nos bastidores, o diagnóstico é de uma condução de campanha desastrosa. A decisão surpreendente de faltar ao primeiro debate em TV aberta na Band — espaço vital para uma legenda que já sofre com restrições na propaganda eleitoral — foi duramente criticada internamente. No dia seguinte, na sabatina da Globo, Zema tentou recuperar terreno, mas se enrolou ao falar sobre políticas para mulheres e adotou um discurso defensivo que não reverberou com a energia necessária para quebrar a polarização entre Lula e o bolsonarismo.
O Novo na corda bamba da cláusula de barreira
A desidratação de Zema vai muito além de um projeto pessoal frustrado; ela é uma bomba-relógio para o Partido Novo. A legenda, que não conseguiu superar a cláusula de barreira em 2022, dependia visceralmente do desempenho de seu presidenciável para alavancar bancadas no Congresso e garantir acesso ao fundo partidário e tempo de TV nas próximas legislaturas.
João Amoêdo, fundador rompido com a sigla, chegou a ironizar publicamente o momento do partido, afirmando que “não aparecer é a melhor coisa que pode acontecer ao Novo” hoje. A ausência de Zema no debate da Band foi vista por candidatos da própria legenda, como Ricardo Salles, como um erro imperdoável de quem deveria liderar a luta pela sobrevivência institucional do partido. Especialistas apontam que uma candidatura majoritária fria congela a base de votos para deputados federais, punindo toda a cadeia eleitoral do Novo.
Fogo amigo e o xadrez travado da direita
A estratégia inicial de Zema também falhou em tentar conquistar o eleitorado conservador órfão de Jair Bolsonaro (inelegível) sem herdar sua rejeição. O mineiro começou comprando brigas desnecessárias com o STF e, em seguida, disparou críticas contra Flávio Bolsonaro, após o vazamento de áudios envolvendo o financiamento de um filme sobre o ex-presidente. A manobra irritou os bolsonaristas abrigados dentro do próprio Novo e não atraiu nenhum eleitor moderado. O recuo forçado e a promessa de focar apenas no “antipetismo” escancarou a falta de direção da campanha.
Espremido entre a força consolidada de Flávio Bolsonaro e o crescimento estruturado de rivais no mesmo espectro, como Ronaldo Caiado (PSD) e o emergente Renan Santos (Missão), Zema perdeu protagonismo. Até mesmo em seu berço político, Minas Gerais, o cenário é de terra arrasada: seu herdeiro político, Mateus Simões, amarga o quarto lugar na disputa pelo governo estadual, enquanto o próprio Zema perde para Lula e Flávio em intenções de voto no estado que governou por mais de cinco anos. O tempo urge, e o ex-governador precisará de mais do que caminhadas solitárias se quiser salvar a própria candidatura e o futuro do partido que o criou.
