A reviravolta jurídica no caso que abalou o mercado de influência digital brasileiro ganhou um novo e decisivo capítulo. Raphael Sousa Oliveira, de 31 anos, criador e proprietário da página de entretenimento “Choquei”, deixou o Núcleo Especial de Custódia do Complexo Prisional de Aparecida de Goiânia (GO) na tarde desta quinta-feira (14). A soltura ocorre exatos 30 dias após sua prisão preventiva no âmbito da Operação Narco Fluxo, conduzida pela Polícia Federal.
Ao retomar a liberdade, o influenciador celebrou o fim do período de encarceramento, que classificou como um “pesadelo”. Apesar do alívio imediato, o retorno à rotina está longe de representar uma liberdade plena. Raphael responderá às graves acusações da Justiça Federal sob um cerco de medidas cautelares rigorosas.
O caminho jurídico para a soltura
A decisão que abriu as portas do presídio de segurança máxima para o dono da Choquei não partiu de uma absolvição, mas de uma manobra técnica da defesa baseada na extensão de um benefício. O Tribunal Regional Federal da 3ª Região (TRF-3) concedeu a Raphael um habeas corpus que havia sido inicialmente impetrado a favor de Henrique Alexandre Barros Viana, proprietário da produtora Love Funk e também investigado na mesma operação.
A tese acatada pela Justiça foi a de que havia excesso de prazo e flagrante ilegalidade na manutenção das prisões, considerando que a Polícia Federal solicitava mais tempo para concluir as diligências de uma complexa teia financeira sem que houvesse, até o momento, uma denúncia formal oferecida pelo Ministério Público. A mesma decisão judicial também beneficiou outros nomes de peso detidos na operação, como os funkeiros MC Ryan SP e Poze do Rodo.
Cerco judicial e liberdade vigiada
Para garantir que os investigados não interfiram na continuidade das apurações ou deixem o país, a Justiça Federal impôs um pacote de restrições inegociáveis. Para permanecer solto, o dono da Choquei é obrigado a cumprir, rigorosamente, as seguintes determinações:
- Proibição de saída do Brasil, com a entrega imediata do passaporte às autoridades;
- Restrição de locomoção, sendo proibido de se ausentar de sua cidade de residência por mais de cinco dias sem autorização prévia e expressa do juiz;
- Comparecimento mensal em juízo para justificar e comprovar suas atividades profissionais e rotineiras;
- Obrigação de manter o endereço atualizado e comparecer a absolutamente todos os atos e convocações do processo judicial.
Qualquer descumprimento dessas regras cautelares resultará na quebra do acordo e no retorno imediato ao sistema prisional.
O peso da Operação Narco Fluxo
A ofensiva da Polícia Federal expôs uma suposta estrutura trilionária de lavagem de dinheiro com ramificações internacionais. A investigação aponta que um grupo criminoso ligado ao tráfico de drogas teria movimentado mais de R$ 1,6 bilhão através de apostas clandestinas, rifas virtuais irregulares, empresas de fachada e contas de laranjas.
O núcleo de influência digital, onde Raphael Sousa foi inserido pelas investigações, é apontado pela Polícia Federal como o braço de “lavagem de imagem” e divulgação do esquema. O inquérito sugere que o dono da Choquei recebia altas quantias para promover conteúdos favoráveis a investigados e divulgar plataformas irregulares. Apenas de MC Ryan SP, a PF rastreou o repasse de cerca de R$ 370 mil a Raphael por campanhas publicitárias.
A posição da defesa e os próximos passos
A equipe jurídica de Raphael Sousa mantém a narrativa de inocência e cooperação. Em nota à imprensa após a soltura, os advogados afirmaram que a prisão representava um excesso desproporcional. A defesa sustenta que a relação do influenciador com os demais alvos da operação se restringia estritamente à prestação de serviços publicitários e de mídia, cobrados e executados de forma profissional, sem qualquer envolvimento gerencial ou ciência sobre a origem ilícita dos valores repassados pelos contratantes.
Agora em casa, Raphael retomará imediatamente o controle editorial de sua página, que possui dezenas de milhões de seguidores. O caso segue em andamento e sob sigilo parcial, enquanto os investigadores cruzam os dados obtidos nos celulares e documentos apreendidos durante as buscas.
