Uma disputa familiar que ganhou repercussão em Goiás envolve uma mulher que decidiu **acionar judicialmente seus nove irmãos para que contribuam de forma mais efetiva nos cuidados da mãe, portadora de Alzheimer e com condições de saúde que exigem atenção permanente. A ação foi protocolada na comarca da residência familiar e marca um raro questionamento jurídico sobre a obrigação de cooperação entre herdeiros em prol da manutenção do bem-estar de um parente idoso.
Segundo relatos apresentados nos autos, a autora da ação assumiu por bastante tempo a responsabilidade principal de cuidar da mãe, que apresenta um quadro de Alzheimer em estágio moderado a avançado — condição que afeta memória, autonomia e realização de atividades básicas de vida diária. A necessidade de supervisão constante, administração de medicação e apoio nas atividades cotidianas teria exigido mudanças significativas na rotina da cuidadora, gerando desgaste emocional e financeiro.
Em sua petição, a mulher argumenta que todos os irmãos são herdeiros legais e também beneficiários do patrimônio que, até então, estavam previstos para dividir, incluindo bens e valores transferidos ou que futuramente serão partilhados no inventário familiar. Por isso, a autora pondera que a responsabilidade pelos cuidados da mãe não recai apenas sobre uma pessoa, mas sim sobre todos os irmãos de forma proporcional às suas condições e possibilidades.
O processo alega que, apesar de a mãe necessitar de assistência contínua — incluindo ajuda para higiene pessoal, alimentação, deslocamento e controle médico — os demais irmãos têm se mantido distantes das responsabilidades diretas, contribuindo apenas de maneira esporádica ou simbólica. A petição pede, assim, que a Justiça defina um regime de custódia compartilhada, incluindo divisão de custos, tarefas de cuidado, hospedagem e suporte à paciente.
Especialistas consultados por advogados da família afirmam que esse tipo de ação — ainda que rara — espelha conflitos crescentes em sociedades com população envelhecida, em que as demandas por assistência prolongada a idosos se intensificam. A legislação brasileira impõe aos parentes o dever de alimentar e ajudar nas necessidades básicas de um familiar incapaz, mas a interpretação sobre como isso se traduz em cuidados cotidianos ainda é objeto de debate jurídico e social.
A jurisprudência indica que, em casos de incapacidade, herdeiros podem ser compelidos a contribuir financeiramente ou a cooperar na prestação de serviços essenciais, desde que o pedido seja fundamentado em provas documentais e periciais que demonstrem a necessidade de suporte e a situação de vulnerabilidade do dependente. A autora da ação anexou relatórios médicos, laudos de neurologistas e comprovantes de despesas já realizadas no atendimento da mãe como parte de sua argumentação.
O processo ainda não foi julgado, e a Justiça de primeira instância deve agora analisar se os pedidos são procedentes, se há necessidade de perícia médica complementar ou assistência social e qual o formato adequado para atendimento conjunto dos irmãos. A decisão pode estabelecer parâmetros importantes para futuros casos semelhantes em que familiares enfrentam dilemas sobre divisão de responsabilidades.
A situação provocou reação entre os envolvidos: alguns irmãos manifestaram apoio à iniciativa, reconhecendo a carga e as dificuldades enfrentadas pela irmã que cuida da mãe, enquanto outros defenderam que já contribuem financeiramente e que a petição judicial não é o caminho ideal para tratar de assuntos familiares delicados.
O caso também acendeu debates em redes sociais e grupos comunitários sobre as responsabilidades familiares no cuidado com idosos, a importância de diálogo entre parentes e a utilização de mecanismos legais como instrumentos de proteção quando soluções extrajudiciais parecem insuficientes para atender às necessidades de saúde e dignidade de uma pessoa vulnerável.


